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A vida e a morte no cinema de Wim Wenders

Tokyo-Ga, filme de 1985: reflexão sobre a perda da aura sagrada do cinema

Tokyo-Ga, filme de 1985: reflexão sobre a perda da aura sagrada do cinema

Por RAFAEL CARNEIRO ROCHA //

O cinema começa com a chegada de um trem à estação. Em 1895, um dos primeiros filmes exibidos publicamente pelos irmãos Lumière revela, durante 50 segundos, mostra a imagem dos passageiros à espera de um trem proveniente de Marselha. Na história do cinema, o trem e a estação são imagens insistentes, mas, pelos olhos dos gênios, elas nunca são banais. Ainda nos enternecem aqueles filmes de John Ford que acompanham as chegadas de homens resignados pelas pancadas da vida às velhas e calorosas estações. Ainda nos causam arrepios aqueles trens de Alfred Hitchcock, à sombra de uma dúvida dos pactos sinistros. Também há muitos trens e estações nos filmes de Wim Wenders, cineasta a quem o Cine UFG está dedicando um ciclo desde a semana passada. Porém, Wim Wenders não é um gênio e ele sabe disto, porque, ao contrário dos grandes fundadores de imagens, ele tem cemitérios demais no pensamento. Neste sentido, seu melhor filme, Tokyo-Ga (1985), me parece aquele que radicaliza e chega a superar seu pensamento, tão parecido com a filosofia de vários de seus compatriotas alemães, sempre à busca romântica das coisas que o tempo supostamente matou.

O fúnebre Tokyo-Ga é dedicado ao seu herói, o cineasta japonês Yasujiro Ozu. Ao partir das imagens de uma Tóquio moderna, Wenders arrisca a tese de que o cinema nunca poderá ser sagrado novamente (se é que algum dia o foi) depois da morte de Ozu. Este cineasta japonês deixava a verdade se desvelar nos seus filmes simplórios, sobre pessoas que tragicamente ignoravam o frenesi da modernidade. Porém, mesmo fora de quadro, o mundo moderno já estava ali, à espreita, roubando os filhos do novo Japão.

Nos filmes de Wim Wenders, o cinema morre, porque as grandes cidades, modernas como ele, perderam o sentido de transcendência. Uma das únicas experiências comunitárias possíveis é a estação de metrô. Tóquio, Paris, Berlim, Nova York, Lisboa, Los Angeles e outras metrópoles filmadas por Wenders não têm qualquer tipo de singularidade que não seja o movimento dos solitários.

O Amigo Americano, de 1977: movimento dos solitários

O Amigo Americano, de 1977: movimento dos solitários

No filme O Amigo Americano (1977), personagens dão últimos suspiros em escadas rolantes, num carro e num trem. Uma tentativa de homicídio em Movimento em Falso (1975) se dá numa balsa. O Estado das Coisas (1982) termina com dois homens sendo mortos por anônimos de veículos automotores. Em Tokyo-Ga, Wenders parte de uma imagem de metrô em movimento para dizer em off que, depois dos filmes de Ozu, o cinema nunca mais seria o mesmo. Se na época áurea do cinema, nos filmes de Ford e Hitchcock, os personagens saíam dos trens para lutar pela vida, em Wim Wenders, os homens literalmente cedem passagem para a morte.

Inevitavelmente, trata-se de um cinema pessimista, e uma das únicas esperanças iluminadas por Wenders se dá na reocupação das cidades por personagens arquetípicos como anjos, artistas e caubóis. Talvez seja por isto que entre os diretores do Novo Cinema Alemão, um movimento da produção cinematográfica daquele país entre as décadas de 1960 e 1980, Wenders seja considerado o mais “clássico” ou “americano”.

Nos filmes de Wim Wenders, as grandes cidades são desertos em que os protagonistas costumam ser figuras em busca da purificação da vida. A pureza é necessária para que, mesmo nas cidades mortas, um filme ainda seja capaz de nascer.

Apesar de tudo, Wim Wenders pode atingir a cada um de nós. Minha predileção por Tokyo-Ga não é gratuita. Uma cena desse filme me evocou o cinema mais repleto de vida de todos, aquele que foi feito por John Ford. Num determinado momento de Legião Invencível (1949), John Wayne senta-se majestosamente, durante o crepúsculo, à beira do túmulo da mulher e puxa um “monólogo” com ela, aguando um vaso de planta sobre a lápide. Wenders fez algo parecido naquele documentário. Um ator dos filmes de Ozu visita o local onde o cineasta está sepultado e se coloca respeitosamente diante do morto. Neste momento, Wim Wenders dialoga para além da lamentação da morte. É um minuto que vale por toda a sua obra, o mesmo tempo que os irmãos Lumière filmaram a chegada do trem à estação. O cinema continua, e a vida mais ainda.


Artigo originalmente publicado no jornal O Popular em 8 de novembro de 2011.

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