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Tripalium

Estava no Home office (palavra que meu amigo Francisco Pierre deplora), daí vi uma imagem de um antigo instrumento de tortura. A imagem coloca na parede o velho Antônio Ermíro de Moraes. Ele dizia que o trabalho dignifica o homem e o “sucesso” só aparece depois de muito suor.

Ele não sabia o significado da palavra trabalho?

A palavra trabalho significa Tripalium (em latim: Tripalium). Era um instrumento de tortura usado na Roma antiga. E a palavra “negócio” significa negar o ócio.

Depois de arrumar todo o Office para me preparar para as férias regulamentares de julho, vi (depois de dois telefonemas, quatro e-mails e uma mensagem no celular) o espaço voltar ao antigo padrão “Tripalium”.

Sem demora comecei a refletir.

O mundo moderno nos prometeu uma vida boa. As máquinas ocupariam nossos postos e o cultivo do espírito estaria nos esperando no primeiro bar ou debaixo de uma árvore com uma rede esticada.

Papo furado. As jornadas de trabalho se multiplicaram e os infernais meios de comunicação digitais não nos dão sossego e impuseram um novo tipo de sociabilidade e labor..

Surgiu também um novo tipo de trabalho: ficar em casa “curtindo” o ofício. Criaram até uma palavra bacana: “home office”. Que nada!! O trabalho ficou ainda mais rotineiro e burocrático.

Os professores universitários sabem muito bem o que significa “home oficce university”: são horas e horas infindáveis na frente das telas ocupadas com relatórios, e-mails clamando respostas imediatas e aqueles pedidos de preenchimento de tudo quanto é coisa – pareceres, formulários, solicitações mil, etc – além da burocracia privada do mundo “out University” – a organização de eventos, palestras e tudo mais.

Os professores de ensino médio e primário penam ainda mais nos seus “Tripaliuns”. A nossa tarefa e missão não seria a de formar nossos jovens? Para isso, muito estudo, preparo de conteúdo, sala de aula, o trabalho pós-sala (correções, leituras) e algumas reuniões. O principal mesmo seria se dedicar ao estudo e a didática para disseminar conhecimento – o que ainda é a base para qualquer formação educacional.

Nada disso. Temos agora, em primeiro plano, a missão de responder aos pedidos da infindável burocracia (pública e privada), que sabem da novidade do Home Oficce (você estará pronto para o trabalho 24 horas por dia).

O mundo moderno trouxe muita coisa boa. Porém, trouxe de volta o velho instrumento romano de forma sofisticada.

E a situação vai piorar com uma crise econômica que parece crescer a cada dia. Sem emprego ou com salários menores, os jovens, principalmente, são aqueles que vão pagar um alto preço: vão trabalhar mais e ganhar menos.

O que fazer? Os brasileiros apanham muito porque são considerados preguiçosos. Isso é mentira ideológica deslavada. O que nós descobrimos é a nossa capacidade para driblar as falsas promessas libertárias do mundo moderno. O italiano especialista no mundo do trabalho, Domenico De Massi, autor dos livros “Ócio criativo” e “O futuro chegou”, aplaude sempre nosso espírito criativo.

Segundo ele, esses dribles não são suficientes para virar o jogo. Mas pelo menos demonstram que o “espírito brasileiro” é bem previdente quando se fala em mundo moderno e suas falsas promessas.

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